Movimentos sociais realizaram nesta segunda-feira (7) a 32ª edição do Grito dos Excluídos. Houve marchas e atos em mais de 50 cidades, em todas as regiões do país, segundo os organizadores. Faixas, bandeiras e gritos de guerra ajudaram a expor o lema da edição, “Na defesa da Terra, da Paz e da Moradia, erguemos a voz: Mulheres Vivas e Soberania!”
Os manifestantes reivindicaram moradia digna; reforma agrária; educação pública de qualidade; defesa do Sistema Único de Saúde (SUS); enfrentamento do feminicídio e de todas as formas de violência contra as mulheres e o combate ao racismo e à LGBTfobia, além do fim da escala de trabalho 6×1.
São Paulo
Na capital paulista, os manifestantes percorreram as ruas do centro e terminou com uma missa na Catedral da Sé, dedicada à população em situação de rua. Antes da caminhada, foi realizado um café da manhã comunitário.
Rio de Janeiro
No Rio de Janeiro, o ato cruzou a Avenida Presidente Vargas, uma das principais do centro da cidade, e teve início após o Desfile de Sete de Setembro.
Um dos diferenciais do ato foi um grupo de ativistas que levou o teatro para a manifestação. No meio da marcha, eles encenavam esquetes com defesa à soberania nacional e à democracia. A ação foi conduzida pela Escola de Teatro Popular, que se identifica como um movimento de teatro político e educação popular.
Um dos coordenadores do grupo é o pesquisador teatral e dramaturgo Julian Boal, filho de Augusto Boal (1931-2009), fundador do Teatro do Oprimido, metodologia teatral criada com a ideia central de transformar o espectador em participante ativo, capaz de discutir e ensaiar formas de enfrentar situações de opressão na vida real. Julian Boal explicou que a presença no Grito dos Excluídos foi uma forma de levar mais pessoas à manifestação. Ele contou que a encenação retratou que a participação democrática não se encerra com as eleições.
“Todo ano os moradores estão sofrendo, ameaçados de despejo, muitos deles, inclusive, em imóveis públicos que, em vez de estarem cumprindo sua função social, como prevê a Constituição, estão sendo ameaçados de serem leiloados para atender aos interesses da especulação imobiliária”, criticou o coordenador do movimento que mantém quatro ocupações na cidade.
O percurso dos manifestantes foi acompanhado de críticas ao tarifaço imposto pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros. Outro tem foi a defesa do fim da escala 6×1, aprovada pela Câmara dos Deputados e que ainda precisa ser votada no Senado, o que deve ocorrer após as eleições. Outra ala do protesto reuniu fotos de vítimas da Ditadura Militar (1964-1985) e cobrava vigilância democrática para que o Brasil não vivencie mais períodos de autoritarismo. Um globo cenográfico de cerca de três metros de altura retratou a preocupação com o meio ambiente.
No meio do ato, um grupo de cerca de 15 pessoas se aproximou de participantes do Grito dos Excluídos e tentou hostilizá-los com gritos. Policiais militares que acompanhavam o trajeto intervieram, e o grupo se afastou, sem registro de confusão.
Brasília
Integrantes do Núcleo de Ecologia Integral de Brasília também aproveitaram o ato para manifestar a preocupação com a crise ecológica e suas dimensões políticas, destacando que o tema é uma questão de justiça social, responsabilidade política e compromisso com a vida.
“O planeta está sendo destruído e se não mudarmos a política ecológica, a forma como estamos tratando nossa casa comum, usando os recursos naturais da forma como estamos gastando, logo não teremos mais onde habitar”, disse à Agência Brasil a economista aposentada Maria do Carmo de Jesus Botafogo.
Fruto de um seminário que reuniu vários membros do grupo, o documento está estruturado em quatro eixos temáticos: políticas agrícolas e fundiária; políticas urbana e resíduos no DF e Entorno; Justiça Climática e Proteção às Vítimas e propostas sobre uma das mais importantes nascentes da região, a da Estação Ecológica de Águas Emendadas, que alimenta duas importantes bacias hidrográficas: a do Tocantins-Araguaia e do Paraná.
“Passadas as eleições, entregaremos uma cópia a todos os eleitos, independentemente do campo ideológico, pois eles terão as mesmas obrigações com o meio ambiente”, acrescentou a engenheira florestal Ana Clara Botafogo, filha de Maria do Carmo.
“Os excluídos são aqueles que não têm casas, moradia, trabalho, alimento, os que estão buscando justiça”, destacou, reconhecendo o desafio de mobilização.
“Quem tem mais dinheiro para financiar suas ações consegue mobilizar mais pessoas. Para trazer os excluídos, por exemplo, muitas vezes é preciso ajudar com transporte, comida, e nós não temos toda a estrutura necessária. Muitos têm vontade de participar, mas não têm condições”, acrescentou, ressaltando o trabalho constante de debates junto às comunidades.
* Reportagem de Alex Rodrigues (Brasília), Bruno de Freitas Moura (Rio de Janeiro) e Guilherme Jeronymo (São Paulo)
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